Síndrome de Guillain-Barré

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O vírus Zika vem provocando muita discussão no meio científico e, além da possível correlação com os casos de microcefalia, surgiu também a possível associação com os casos de síndrome de Guillain-Barré. Apesar desta patologia neurológica estar mais em evidência neste momento, ela já é uma “velha conhecida” de quem trabalha com Neurologia.

O que é?

Pensando numa definição mais técnica, a Síndrome de Guillain-Barré é uma poliradiculoneuropatia inflamatória aguda desmielinizante. Apesar de o nome técnico ser enorme e um tanto assustador para o leigo, quer dizer que se trata de uma patologia que acomete diversas raízes nervosas, possui uma característica inflamatória que, por sua vez, agride a bainha de mielina (que é um revestimento existente nos nervos periféricos) de maneira aguda. Dados epidemiológicos podem ser encontrados na literatura mundial mostrando o impacto desta patologia no mundo. Estima-se que a incidência mundial seja de 0,6 a 1 casos/100.000 habitantes1, enquanto que no Brasil, baseado em dados de 20022 e 20043, estima-se que a incidência seja de 0,6 casos/100.000 habitantes. Infelizmente, até o presente momento, cerca de 40% dos casos dessa doença permanecem com etiologia desconhecida (idiopática)4, apesar de ser de amplo conhecimento a presença de um processo inflamatório imunomediado que provoca desmielinização no sistema nervoso periférico. Diferentes variações clínicas podem ser relacionadas a infecções virais (ex: vírus Zika, citomegalovírus, Epstein Barr, hepatites por vírus tipo A, B e C, influenza e HIV)4,5,6 ou bacterianas (ex: Campylobacter jejuni), vacinações ou cirurgias

Sintomas:

Tipicamente nos quadros de Síndrome de Guillain-Barré, os pacientes percebem uma parestesia (sensações inespecíficas na pele, tipo dormência, formigamento, entre outros) inicialmente nas regiões distais tanto de membros inferiores quanto superiores (mãos e pés). Pode também apresentar dor de origem neuropática (lombar ou nas pernas). A fraqueza muscular progressiva é o sinal que talvez mais chame a atenção do paciente e, geralmente, inicia em membros inferiores, depois braços, tronco, cabeça e pescoço, podendo apresentar grande variedade com relação a diminuição da força muscular. Esse acometimento da força pode variar desde uma pequena perda de força até uma paralisia completa que envolva os quatro membros (tetraplegia), sendo até mesmo necessário que o paciente seja colocado em ventilação mecânica em função de comprometimento da musculatura respiratória.

Não é raro o paciente apresentar sintomas infecciosos precedendo o quadro neurológico…precedendo a fraqueza muscular. Como é uma patologia que acomete o sistema nervoso periférico, também é observada uma diminuição ou abolição dos reflexos tendinosos e alterações sensitivas. A doença atinge o ápice de sua deficiência motora (chamado de NADIR) entre 2-4 semanas (até 75% atingem o nadir na 2ª semana, 80-92% até a 3ª semana e 90-94% até a 4ª semana)5,7. Passada a fase progressiva, a doença entra então num período de estabilização (platô) que dura vários dias ou semanas e inicia entra um processo de recuperação gradual das funções neurológicas acometidas. Cerca de 15% dos indivíduos acometidos ficarão sem qualquer deficiência residual após 2 anos do início da doença, enquanto que de 5% a 10% apresentarão incapacidade sensitivas e/ou motoras  após o mesmo intervalo de tempo5,8. A taxa de mortalidade dos pacientes com síndrome de Guillain-Barré gira entre 5-7% e frequentemente é resultado de complicações respiratórias

Tratamento

Além do tratamento clínico adequado, que será devidamente orientado pelo seu médico, o paciente com síndrome de Guillain-Barré precisará contar com o suporte importantíssimo da Fisioterapia. O tratamento fisioterapêutico ocorrerá em dois momentos específicos: inicialmente, durante a fase hospitalar dos pacientes que necessitarem de internação; e num segundo momento, pós hospitalar, onde a recuperação funcional seguirá. Durante a fase hospitalar, serão fundamentais os cuidados cardiorrespiratórios, principalmente naqueles pacientes que por ventura necessitarem de ventilação mecânica. Nestes pacientes, o papel do fisioterapeuta é fundamental na evolução até o desmame do ventilador (voltar a respirar espontaneamente). Ainda na fase hospitalar o treinamento funcional já é iniciado, procurando aumento da força muscular e o restabelecimento do controle de tronco na posição sentada e de pé. Os trabalhos de marcha já deveriam ser iniciados ainda nos hospital. Durante a fase pós-hospitalar, geralmente a fisioterapia dá prosseguimento com os atendimentos domiciliares, onde o objetivo é treino e recuperação das atividades de vida diária, com treino de atividades do dia-a-dia como andar, sentar, rolar na cama, aumentar força de tronco, braços e pernas, lidar com utensílios do dia-a-dia e também a possibilidade da indicação de órteses (dispositivos com o intuito de melhora da função de um membro ou órgão). Na medida em que o paciente já seja capaz de sair de casa e já apresente a necessidade de expansão de seu potencial, o trabalho pode e deve ser complementado na clínica, onde o fisioterapeuta conta com mais recursos para exercícios e treinos funcionais. Este trabalho de retorno às suas atividades do dia-a-dia é longo e a fisioterapia neurofuncional será de grande importância em todos os momentos da recuperação deste paciente até que ele tenha alta e possa retomar normalmente à sua rotina de vida e de atividades físicas, agora já sem a necessidade de supervisão de um fisioterapeuta.

 

Referências:

  1. Rev Paul Pediatr 2011;29(4):685-8.
  2. Dias-Tosta E, Kückelhaus CS. Guillain Barré syndrome in a population less than 15 years old in Brazil. Arq Neuropsiquiatr 2002;60:367-73.
  3. Rocha MS, Brucki SM, Carvalho AA, Lima UW. Epidemiologic features of Guillain-Barré syndrome in São Paulo. Arq Neuropsiquiatr 2004;62:33-7.
  4. Neil J, Choumet V, Le Coupanec, d’Alayer J, Demeret S, Musset L. Guillain-Barré syndrome: first description of a snale envenomation aetiology. Journal of Neuroimmunology. 242(1-2): 72-77; 2012.
  5. Hahn AF. Guillain-Barré syndrome. Lancet. 1998;352(9128):635-41.
  6. Kieseier BC, Hartung HP. Therapeutic strategies in the Guillain-Barré syndrome. Semin Neurol. 2003;23(2):159-68.
  7. van Doorn PA, Ruts L, Jacobs BC. Clinical features, pathogenesis, and treatment of Guillain-Barré syndrome. Lancet 2008;7(10):939-50.
  8. Hughes RA, Wijdicks EF, Benson E, Comblath DR, Hahn AF, Meythaler JM, et al. Supportive care for patients with Guillain-Barré syndrome. Arch Neurol. 2005;62(8):1194-8.
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